A arca do tesouro
Depois dizem que ser caçula e dez,que isso e aquilo.conversa fiada! Eu logo vi que ia dançar quando a distribuição começou pelos filhos do filho mais velho do vo e eu que pensava que era o neto favorito... Pura ilusão!O vo chegou com aquela lista enorme – os nomes dos netos numa coluna e na outra, os nomes dos bichos de estimação. Cada um que era chamado, saia na maior farra com seu bichinho a tiracolo. E eu aflito, de olho no pônei. Não liguei em perder os maiores, que não alcançava nem pra fazer um carinho na barriga. Mas quando o pônei saiu prum primo, deu vontade de me jogar do barco La na água e adeus mundo cruel! Espiei comprido o primo montado no meu pônei, sumindo na curva do convés e murchei. Daí a pouco, o vo me chamou. Fui me arrastando. Arrasado. – olha o que o vovo reservou pro netinho do coração,ele disse,suspendendo uma gaiolinha a altura dos meus olhos. Sabe o que tinha La dentro? Uma pomba com cara de boba, que só sabia fazer Ru-Ru!
E pensa que acabou a historia? Alem desse bicho boco ainda me deram outro abacaxi: minha missão, agora era passar o dia inteiro olhando pela janela da proa pra ver se descobria terra a vista. O vo disse que não era pra fazer aquela cara de enterro, que eu não tinha ideia do meu presente e outros papos de gente grande. Mas eu queria ver se ele aguentava a tortura que e ficar aqui, parado, olhando essa pomba sem graça, enquanto meus primos se esbaldam com seus mascotes. Também quem se importa com eles? Depois de quasequarenta dias num barco lotado de gente e bicho, tomei um tal abuso de tudo e de todos,que o que eu quero mesmo e distancia! Distante... E a lembrança que tenho daquele dia. A vila inteira rindo do meu avo, de nos. Eu morto de vergonha de estar num barco cheio de animais, um mais diferente do que o outro. Queria estar no chão, jogando bola, soltando pipa. Solto. De repente, um rico de luz rasgou o céu. E outro e mais outro. Um sem fim de luzes e estrondo. Parecia o barulho de todas as montanhas do mundo caindo. Corri pra debaixo do avental da minha mãe e a terra só uma lembrança. Porque a água caiu depois, cobriu tudo. Cada pingo grosso, como os da chuva de verão. Bom era sair com os primos, se lavar naquele véu de água e se lambuzar de lama.
Pra desespero de nossas mães que diziam ter mais barro nas nossas roupas do que no corpo do adão. Distante... E agora, tudo o que eu quero e distancia. Eu que sempre fui unha e carne com meus primos agente não se desgrudava pra nada. Acho que e esse aperto, isso do nariz de um estar sempre se metendo aonde não e chamado. E nem precisa chamar: com a falta de espaço do barco, todo mundo. Só aturo mesmo a companhia dessa pomba branca... Que legal! Ela não precisa levantar a cabeça para beber água, como fazem os outros passarinhos. Fica com o biquinho mergulhado na tigela, tomando uns goles compridos. Bichinha esperto- parece gente!Por falar em aparece gente, não tinha reparado em como seus olhos Sam bonitos. Lembram os olhos do meu avo, cheios de paciência.
Paciência e o que se tem que aprendera ter nesses dias que passam arrastados, como as águas. De tanta convivência, minha pomba virou mesmo minha. Já anda solta, escolhe a comida que quer: tem dia que prefere arroz: no outro, frutas e, em dias de fastio, só come alface. Aprendeu ate a vigiar comigo. Pra mim, toda sombra que se move e o topo de uma arvore. Fico tão empolgado que penso em ir correndo avisar o vo que já tem terra a vista.mas a pomba puxa a manga da minha camisa e me puxa de volta pro chão.esse chão duro de madeira e cheio de bestume .ela sabe,engraçado,ela sabe onde a terra esta..que sabedoria e essa deus Poe numa cabeça tão miúda e a minha,que e muito maior,não entende ?
Não sei se foi o costume, seus arrulhos melosos de amor, o jeito de ela olhar o horizonte com tanta responsabilidade, ou se foi tudo junto. O fato e que eu acabei me rendendo. Uma pomba conquistar um menino, quem diria!e logo um menino tão esperto como eu!Quando ia almoçar, ela pousava no meu ombro e ia também. Isso um elefante não pode fazer, por exemplo. Nem uma girafa ou uma serpente. Muito menos um pônei! Às vezes, ele beliscava minha comida, mas preferia a sua própria, que era menos temperada. Meu avo ficava feliz de ver nossa amizade e piscava o olho. A pomba sempre piscava de volta, de modo que eu não descobria sela pra mim que ele piscava ou se ela para ela. Uma tarde fazia um calor tão grande, que tudo que alguém podia querer era um banho de rio-mas não daquela água barrenta!Um rio, como os da minha terra, fresquinhos, limpinhos, cheios de peixe pra se pegar com puçá. E tava meio acordado,meio sonhando,contando meus planos para pombinha, planos pra gente quando agente achasse a tal terra a vista. De repente, sem mais nem menos, ela parou de arrulhar e lançou aquele olhar serio pro horizonte. Não deu tempo nem de perguntar o que era: ela virou a cabeçinha pra mim, piscou e saiu voando numa velocidade incrível prum pássaro enferrujado de nunca voar. Eu gritei o que foi o que era, volta, não me deixa!Mas ela sumiu numa nuvem, branquinha que nem ela.
Deu-me um no na garganta, me deu uma solidão, me deu um medo.
Eu, que nunca tinha enjoado com o balanço do barco ate àquela hora, enjoei de ficar tonto.corri pro meu avo.
Quem sabe ele não tinha um remédio para isso?
- remédio pra isso, meu filho, e tempo e paciência. Seu avo vai ensinar como faz
Voltou comigo pra janela, pro meu posto de vigia. Só que, sem minha companheira, doía ficar ali. Meu olho foi aguando vo falou enquanto secava minhas lagrimas:- não chora não, menino. Você não acha que já tem bastante água La fora? Sabe a vantagem de ser velho?,Ele continuou, puxou uma cadeira pra sentar. Agente aprende que, às vezes, o que parece ser o fim do mundo, e o começo. Lembra a cara que você fez quando eu lhe dei a pomba? E agora, e agora, quando ela sai voando,olha o mundo acabando outra vez! Paciência, e preciso esperar pra ver que vida a vida nos traz.
Que a vida a vida nos traz, parecia uma musica desafinada pros meus ouvidos entupidos de tristeza. Que vida... Então, olhei pela janela e vi.
Pensei que era miragem, sonho, um floco de nuvem deslizando ao sabor do vento. Mas o vo sorriu pra mim e piscou o olho: ela era!Entrou pela janela e foi dito pra ele-no bico, traziam galho de oliveira. -foi bem cumprida à missão dos meus valentes escolhidos. A vida só traz vida, disse ele segurando o galhinho, como se fosse de ouro. E o mundo começa dinovo! Cabe a você o anuncio da boa nova.
-Qual boa nova, vô: , perguntei, distraído com os carinhos da pomba.
-Terra a vista, ora!
E foi o que eu gritei pelo barco afora, a pomba voando sobre a minha cabeça, enquanto um arco-íris se desenhava La fora.
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